TRANSGENERISMO, TRANSGENERIDADE E POSGENERISMO
Letícia Lanz, 09-06-2009

Embora a palavra “transgenerismo” seja usada como rótulo genérico para indivíduos portadores de Transtorno de Identidade de Gênero - transexuais, em particular – esse termo também designa um movimento sócio-político bastante amplo, surgido no final do século XX, na esteira das conquistas dos gays e lésbicas, que busca a defesa dos direitos e interesses de pessoas transgêneras, assim como a afirmação do orgulho transgênero.

O movimento transgênero – ou simplesmente movimento “trans” ou T* - tem sido desde o começo um imenso guarda chuva, incorporando demandas tão diversas quanto de pessoas transexuais, travestis (crossdressers), dragqueens e dragkings, andróginos, transformistas, indíviduos intersexuados e quaisquer outros indivíduos não-conformes ao código binário de gênero masculino/feminino. Em síntese, o movimento acolhe pessoas que por qualquer motivo não se comportam de acordo com as expectativas sociais do gênero em que foram enquadradas ao nascer. Todo esse imenso contingente humano esteve durante muito tempo abrigado dentro do movimento de Gays e Lésbicas, mas aos poucos foi se destacando dele, na medida em que suas demandas específicas e tão diferenciadas começaram a vir à tona.

Durante a primeira década desse século XXI, o transgenerismo ganhou estrutura e fôlego, sobretudo em países do hemisfério norte, onde inúmeras organizações públicas e privadas trouxeram voz e força aos movimentos para a afirmação da pessoa transgênera na sociedade.

Foi também nesta década que se começou a falar, ainda que muito difusamente, de “transgeneridade” como uma terceira opção de gênero, além das duas alternativas oficiais existentes (masculino e feminino).

No Brasil, o movimento transgenerista ainda é bastante incipiente, se que é pode ser reconhecido como um movimento estruturado. Há, sim, muita articulação entre os órgãos de defesa dos interesses de transexuais e travestis, mas nenhuma organização se apresentou até agora como porta-voz do movimento transgênero em nosso país.

Simultaneamente ao avanço do movimento transgenerista em países do primeiro mundo, o final do século XX assistiu o surgimento de um “Movimento Posgenerista”, cuja proposta vai muito além da defesa dos interesses desses “outros gêneros” historicamente excluídos do modelo binário oficial masculino/feminino.

Na verdade, o Pós-Generismo advoga em essência a extinção total dos gêneros. Um dos principais argumentos dos que antevêem o fim dos gêneros é o crescimento vertiginoso das técnicas de biotecnologia avançada que têm levado a reprodução humana assistida para campos até agora imagináveis apenas em filmes de ficção científica. Mas o principal argumento dos posgeneristas é que a existência de apenas dois gêneros, estabelecidos a partir do sexo biológico das pessoas tem funcionado como mecanismo de repressão dos indivíduos e forte impeditivo do desenvolvimento de uma sociedade humana mais justa e igualitária.

Embora o femininismo radical defenda a pura e simples extinção do gênero masculino, alguns defensores mais moderados do posgenerismo predizem que o ser humano do futuro deverá ser basicamente um indivíduo andrógino, reunindo em si o que há de melhor nos “códigos sócio-culturais” da masculinidade e da feminilidade. Antes de serem “machos” ou “fêmeas”, “homens” ou “mulheres” ou “transexuais” ou “travestis” ou quaisquer outras categorias, os seres humanos de um futuro não muito distante serão apenas “pessoas humanas”, liberadas para exibir o melhor da espécie humana, por não estarem mais submetidas aos rígidos esquemas de comportamento e expectativas de desempenho social ligados a gênero.

Por outro lado, como o espaço de interação humana tende a ser cada vez mais virtual nessa era digital, os defensores do pós-generismo advogam que as rígidas estruturas de gênero, sexo e sexualidade nas quais temos vivido até hoje, tendem a diluir-se e ao mesmo tempo diferenciar-se ao infinito, de modo que se tornará praticamente impossível classificar qualquer ser humano em função desses critérios, como ainda se faz atualmente no mundo real. Porém, no mundo virtual, essa indistinção de sexo e gênero já é fato consumado. Ao navegar na Internet, por exemplo, é impossível saber se um eventual interlocutor é homem ou mulher, mesmo que ele se apresente de uma ou de outra forma.

A tecnologia, por seu turno, permitirá que as transformações corporais nos indivíduos tornem-se procedimentos tão corriqueiros que joguem por terra a terrível burocracia hoje existente em torno de tais transformações.

Para quem nasceu, cresceu e está vivendo em um “mundo generado” é simplesmente impossível, para não dizer “terivelmente ameaçador” pensar em um mundo assim, completamente sem gênero (ou, se preferirem, com tantos gêneros quantas pessoas existirem). Mas, embora pareçam possibilidades bastante remotas, as tecnologias necessárias para que isso tudo aconteça não só existem como continuam sofrendo avanços exponenciais.

Enquanto os cavalos continuam aparentemente no mesmo trote, o posgenerismo é mais do que oportuno como reflexão do gênero como instituição social “em fim de carreira”. É preciso por em cheque cada vez mais o que as pessoas “deveriam” ou “não deveriam” fazer em função do seu sexo biológico, a partir do seu enquadramento em um dos dois gêneros existentes. Apesar de ser o principal mecanismo repressor e embotador das melhores qualidades humanas, é sobre essa dualidade, totalmente supérflua no mundo atual, que continua estruturada toda a vida social do planeta.

Ao advogar o fim do gênero como critério de enquadramento dos seres humanos – o movimento posgenerista dá um novo enfoque a um dos pilares do próprio movimento transgenerista – que é a contestação da existência de apenas dois gêneros para enquadrar as infinitas possibilidades de expressão dos seres humanos.

>> Editoriais Anteriores